sábado, 3 de março de 2012

Previsão


"Senti-me na obrigação de despedir-me de todos. Todos que me interessavam, ao menos. Não era justo, com os que me rodeavam, ver-me sumir assim. Assim como não estavam sendo justos comigo o mundo, as pessoas, os sentimentos. Eu mesmo não estava sendo. Afundava-me, dia após dia, em sofrimento, arrependimento e angústia. E culpa. Muita culpa. Nada me fazia feliz mais. Nem discutir filosofia com meus amigos, nem ouvir música, nem dançar... Nem mesmo falar com minha mãe, que era uma das coisas que mais me acalmavam e faziam feliz. Não adiantava mais. Dezessete anos e o mundo já havia se mostrado comigo tão hostil, sujo, desumano. 'Desumano', decerto, é a palavra. Ou talvez o mundo fosse normal e eu fora hostil, sujo, desumano. O que será que estão falando agora? "Menos um"? "Fraco, não aguentou..."? Provavelmente. E, mais uma vez, virar-me-ia o mundo as costas. Que estupidez acreditar que, de fato, algo mudaria... Será que fugi do meu sofrimento criando um novo para os outros? Talvez não. Quem sofreria por tão pouco? Aparentemente ninguém. O mundo está melhor, agora. Vocês conseguiram!"

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