terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Almoço

Desde que comecei a viver nesse ninho de bizarros protocolos sociais, tornei-me um assíduo "observador do carnaval das relações humanas". Dentre todos esses, entretanto, situações que, em especial, me intrigavam eram as refeições conjuntas. Maravilhavam-me os grupos formados diante das redondas mesas de madeira, dispostas de maneira desorganizada ao longo do refeitório. Era costume observar a formação de grupos, de alguma forma, homogêneos: líderes carismáticos, cariocas populares, viciados em academia, aratacas (como chamávamos os nordestinos), aspirantes a filósofos... Os que não se encaixavam em grupo algum (e, algumas vezes, até os que se encaixavam) tinham a obrigação de misturar-se em mesas sem fator comum marcante, o que quase sempre gerava conversas vazias e pouco edificantes acerca de assuntinhos corriqueiros.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Consequência


Era um garotinho, de treze ou quatorze anos. Um garoto que sofria. Muito. Por muitos motivos. Cansado de tanto sofrimento, decidiu que não sofreria mais. Jurou para si mesmo. Não sofreria mais! Não sentiria mais! Com o tempo, tornou-se inatingível, inabalável, inquebrável. Ou, pelo menos, pensou ser. Não encarara, entretanto, nenhum de seus problemas. Tratou de escondê-los, em algum lugar de seu íntimo, como poeira embaixo de móveis. E como mágica, de todas sequelas dos males de outrora, livrou-se. Inocente, pensou estar mesmo tudo bem. Mal sabia ele que, com o passar dos dias, meses, anos, ventos viriam, tirando parte da poeira de baixo dos móveis, fazendo-o sofrer mais e mais. Notou que fizera tudo errado. Começou, assim, a tentar encarar os problemas. O costume, contudo, levava-o, muitas vezes, a deles fugir. Algum tempo depois, achando que tudo se resolveria, o pobre garoto também notou que, por ter abrido mão de seus sentimentos, não sabia mais amar.

Exposição

Exponha-se. Escreva suas necessidades e vontades nas paredes ao seu redor. Abra seu coração para quem quiser lê-lo. Tente dar nome a cada sentimento que perpassar sua cabeça. Faça-o, contudo, com uma única certeza: ninguém vai te entender. As pessoas não entendem. Por mais que tentem, conversem, convivam... Se nem você, dono dos seus pensamentos, compreende decerto o que é, por que outros, forasteiros, teriam a obrigação de entender? Ser um livro aberto não garante compreensão, bem como a não-exposição não é garantia de incompreensão. Confie no seu pensamento. Espere menos do dos outros...